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sexta-feira, 18 de maio de 2012
Tommie smith e John carlos-Olimpíadas México 1968
Não existe imagem de pódio mais famosa na história das Olimpíadas do que essa aí em cima. Mais: essa foto é uma das mais marcantes do século 20. Ocorreu nas Olimpíadas de 1968, no México, e a história é conhecida por todos: dois atletas negros ergueram seus braços para protestar pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. O que poucos sabem é a história de coragem, honra e suor desses três homens aí no pódio.
Em 1968, os Estados Unidos ferviam com os protestos dos negros que estavam cansados do preconceito e da segregação racial que os proibiam até de utilizar o mesmo bebedouro dos brancos. Marchas, protestos e violência de ambos os lados ocorriam por todo país. Seis meses antes das Olimpíadas, o ativista político Martin Luther King tinha sido assassinado, e os atletas negros ameaçavam boicotar as Olimpíadas caso a segregação continuasse.
Tommie Smith e John Carlos, os atletas negros na foto do pódio, tinham planejado o protesto durante os treinamentos para as Olimpíadas. Eles iriam mostrar os punhos cerrados caso vencessem a prova, a saudação dos “black power”. Uma atitude bem arriscada, já que existiam ameaças de morte de grupos conservadores americanos e o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) proibia qualquer tipo de manifestação política em seus jogos (o que poderia custar as carreiras deles como atletas).
O figurante
Nada era mais aguardado naquelas Olimpíadas de 1968 do que a prova dos 200m rasos. Os treinos exaustivos dos dois americanos se justificavam não só pela busca do pódio, mas também pela quebra do recorde mundial na prova. O que eles não esperavam era um australiano branco bem no meio deles.
A corrida começou como era esperado: os dois americanos saíram na frente. Mas nos últimos 60 metros, Tommie Smith correu como uma flecha e conquistou o segundo lugar. Era a primeira vez que um homem corria os 200m em menos de vinte segundos. O seu compatriota, John Carlos, levou um susto com a velocidade do seu companheiro de treinos e não teve tempo de perceber que o australiano Peter Norman o ultrapassou e conquistou o segundo lugar por alguns milímetros de vantagem.
Dentro do vestiário, enquanto aguardavam a hora de serem chamados para o pódio, Tommie e John contaram para o australiano que usariam a premiação para protestar pelos direitos dos negros. Peter, um cara branco que não tinha nada a ver com os Estados Unidos e nem com a luta dos negros americanos, decidiu participar do protesto do seu jeito.
Primeiro, pediu para subir no pódio com um broche dos direitos humanos – o mesmo utilizado pelos atletas americanos que apoiavam a causa negra. Depois, ao perceber que Johnny tinha esquecido seu par de luvas negras, sugeriu que ambos os atletas dividissem o mesmo par e cada um colocasse em uma mão. O australiano afirmou que acreditava que todos homens nasciam iguais e deveriam ser tratados dessa forma. “Peter tornou-se meu irmão naquele instante”, revelou Johnny anos depois. “O fato de um atleta branco subir ao pódio olímpico com um adesivo a favor da igualdade racial deu outra dimensão a nosso protesto.”
E assim os três homens mais rápidos do mundo caminharam pelo gramado daquele estádio abarrotado de gente para receber suas medalhas. Sem saber se existia uma arma apontada para a cabeça deles, eles se enfileiraram em cima do altar máximo do esporte, o metro quadrado mais disputado em todo o mundo.
Logo que a bandeira dos Estados Unidos começou a ser içada e, aos primeiros acordes do hino nacional americano, os dois atletas negros baixaram suas cabeças e ergueram o punho rígido para o alto. Com um simples gesto, a luta pelos direitos raciais invadia as Olimpíadas e mudaria para sempre a vida daqueles três homens.
As consequências
Mais rápidos do que aqueles três velocistas no pódio só mesmo as críticas que inundaram o mundo devido à atitude deles. Milhares de jornais escreveram textos de repúdio ao protesto citando que as Olimpíadas eram um evento apartidário, que o ato era uma desonra à bandeira americana e até a supremacia dos brancos. De imediato, o COI proibiu os americanos de continuarem nos Jogos e os expulsou da Vila Olímpica.
De volta para os Estados Unidos, os dois atletas tiveram que continuar com o punho fechado para suportar as constantes ameaças de morte que passaram a receber e as críticas que vinham de todos os lados, até mesmo da própria família.
Para Peter Norman também não foi fácil. Logo após voltar para a Austrália, ele sofreu nas mãos da imprensa e dos australianos que não gostaram de sua atitude ao se solidarizar com os negros. Ele foi suspenso de competições durante dois anos. A federação australiana também o proibiu de participar das Olimpíadas de 1972. Foi a gota que faltava para Peter se aposentar para sempre das pistas de atletismo.
Marcas são temporárias, legados são eternos
Décadas depois de um dos gestos mais marcantes do século 20 muita coisa mudou. Os direitos dos negros estão consolidados nos Estados Unidos e a desigualdade social e o racismo diminuíram em relação àquela época. O que não mudou? Os três atletas que se encontraram no pódio permaneceram juntos e viraram amigos. Desde então, realizaram palestras, participaram de homenagens e foram reconhecidos mundialmente pela importância de sua atitude.
Nas Olimpíadas de 1996, em Atlanta, o COI finalmente decidiu reconhecer o papel daquele gesto no movimento dos Direitos Civis na década de 60. A faculdade de San José inaugurou uma imensa estátua comemorativa com a presença dos três atletas.
O gesto virou não apenas um protesto, mas também o símbolo da união de homens de diferentes raças e países defendendo a mesma causa. A honra e a preocupação com milhares de pessoas fez aqueles três homens deixarem de lado o orgulho individual de ser campeão para defender a igualdade entre os homens.
Até hoje, o tempo de 20.06 segundos de Peter Norman naquela corrida é recorde na Austrália. Ele é o maior velocista do seu país e, se ele tivesse corrido nas Olimpíadas de Sidney, em 2000, com esse tempo, teria conquistado a medalha de ouro.
Em 2006, Peter Norman morreu de ataque cardíaco. Tommie e John viajaram até a Austrália para dar o último adeus ao atleta. Eles fizeram um discurso emocionado. “Peter significa rocha”, afirmou Tommie, “O legado do pai de vocês é uma rocha. Não desçam jamais dela.” Naquele dia, os dois americanos ficaram na frente para carregar o caixão do homem que foi rival na pista de corrida, mas companheiro na luta pelos direitos dos homens.
Fonte: http://www.chivalryclub.com.br/blog/esporte-2/homens-de-honra/
http://www.youtube.com/watch?v=k9NsN0ybTec&feature=related
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